MOHSEN EMADI: “O QUE ME AJUDA A SOBREVIVER É A POESIA DE CADA PAÍS POR ONDE TENHO PASSADO”.

Entrevista a Cláudio Aguiar

O poeta e tradutor iraniano Mohsen Emadi veio ao Brasil para participar de eventos em Curitiba, Rio de Janeiro e Ouro Preto. A sua vinda, patrocinada pela ONG International Cities of Refuge Network (ICORN), entidade sediada na Noruega e apoiada pelo PEN Internacional, contou também com os auspícios da Festa Literária das Periferias (FLUPP) e do PEN Clube do Brasil.  Além disso, Emadi atuou nas demarches que culminaram na criação da  Casa Brasileira de Refúgio (CABRA), a primeira ONG do gênero a ser fundada na América do Sul, com sede no Rio de Janeiro.

Mohsen Emadi (Irã, 1976), publicou, entre outros, os livros de poesia A flor das linhas (Lola Editorial, 2003), As leis da gravidade (Oliphant, 2011) e O visível ar, legível como a morte (Oliphant, 2012), todos editados em Espanha. Em 2007 foi publicado no Irã o livro de poesia Não falar de seus olhos (Ghoo Publishing). Publicou, ainda, traduções de obras de Vladimir Holan, Nichita Stanescu, Jiri Orten, Antonio Gamoneda, Pizarnik, Juan Gelman, Cezar Vallejo, João Cabral de Melo Neto, Carlos Drummond de Andrade etc. Em 2007 fundou a Antologia Mundial de Poesia Persa, da qual figura como editor responsável. Deixou o Irã em 2009 e passou a viver em vários países europeus. Atualmente está vivendo na cidade do México (DF), onde trabalha na elaboração de dois livros de poesia e em documentário poético sobre o exílio de Luis Cernuda. Em 2010 recebeu a bolsa de estudos “Finnish Literature Exchange, Fili” para sua antologia de poesia finlandesa. No mesmo ano ganhou o Prêmio Internacional de Poesia Medo (Espanha). Em 2011 conquistou a Bolsa Internacional Antonio Machado de Espanha.

Cláudio Aguiar – Para começar, quem é Mohsen Emadi?

Mohsen Emadi – Saber quem eu sou é muito dificil. Descobrir-me é como encontrar a morte. Se, por um lado, a todo momento estou construindo eu mesmo, por outro, com toda minha experiência apenas construo quem eu sou. Esse é um processo de contaminação enfermiça… O que sou e faço, respondendo diretamente à sua indagação, é encarar o essencial da vida. Isso pode ser feito por meio da experiência da minha infância, ou por intermédio de meus textos, isto é, o visível e o invisível, o que vemos e o que nunca falaremos. Tudo isso se enraiza em meu corpo e por certo, eu não sou mais do que meu próprio espírito. Nesse sentido, eu sou um ser enfermiço e também eterno.

CA – Seu nascimento e formação inicial se deram numa cidade grande ou numa vila do interior de costumes rurais?  

ME – Eu nasci no norte de Irã, numa vila a apenas 15 km do mar Cáspio, praticamente dentro de um bosque. A minha formação se deu ao lado da família, formada por camponeses cultivadores de arroz e de outros produtos agrícolas e também caçadores. Parte de meus familiares também era integrada por viajantes do comércio com outras vilas próximas.

CA – Como e quando surgiu seu interesse pela poesia ou, noutras palavras, a manifestação da sensibilidade pelo artístico?   

ME – Penso que para responder a essa pergunta o melhor seria falar sobre minha avó, uma mulher ativa, sempre a lutar na vila por causas nobres, a exemplo do direito das mulheres. Ela bailava, cantava e vestia roupas encantadoras. Era uma das poucas mulheres do lugar que escrevia poesia e, ademais, trabalhava no campo. Sua existência e suas canções folclóricas, tiveram forte influência na minha formação. Por causa dela, desde os 6 anos, comecei a esvrever poesia desde. Era tempo de guerra e, naquela época, poesia era uma forma de viver e não só de expressar e de sentir. Daí que a única maneira de senti-la era por meio do canto, da música.  O Irã tem longa tradição poética. Todas as pessoas, de etodos os niveis sociais, mantêm forte contato com a poesia. Agora, o que estou a chamar de poesia não é, evidentemente, o que eles praticam como poesia. Eles têm uma maneira especial de expressar a litetatura. A literatura persa. Assim, a forma poética que eu adoto, como escritor, é outra forma de expressão que me custou muitos anos de aprendizado.

CA – Você disse que em Irã se respira e se transpira poesia. Isso é muito curioso. Creio que, talvez por esse caráter tão marcante da vida iraniana, a poesia está presente inclusive na celebração das estações do ano, como a Primavera, chamada de “noruz”, quando se comemora o primeiro dia do ano, acontecimento que anuncia  a chegada das flores, do que há de mais belo na natureza.

ME – Quase todos os aspectos de nossas tradições culturais têm algo que ver com a poesia. Noruz para nós significa renascimento de toda a natureza. Isso ocorre não apenas no Irã, mas em outros países vizinhos, como a Albânia, Turquia, Afeganistão etc., onde a primavera tem esse significado. Na noite em que começa noruz, quer dizer, a primavera, toda a gente se reúne para dizer ou ler poesia, principalmente as obras de Hafiz…

CA – Em que época  viveu Hafiz, poeta símbolo dessa tradição?

ME –  Na época medieval. Sua poesia existe em toda casa iraniana. Temos uma palavra para dizer o que isso significa, a qual pode ser traduzida como sendo “linguagem da ausência”, expressão que também deve ser traduzida como “decifrar nosso futuro”.

CA – O sentido dessa expressão talvez possa lembrar o nosso termo “saudade”, aquilo que os espanhóis, numa tentative de aproximação, chamam de “nostalgia”.

ME – Eu penso que saudade e nostalgia são termos diferentes, porque, como dizia meu amigo Eduardo Milán,saudade é saudade de si mesmo, enquanto que nostalgia é saudade do outro ou de algo.

CA – Bem, depois de atingir os 30 anos de idade, você começou a publicar e a difundir uma obra poética, inclusive, fora do Irã. Terá sido esse labor poético a causa fundamental de seu exílio forçado a partir de 2009?

ME – É bastante difícil responder a essa pergunta. Nós temos sempre a possibilidade de eleger o caminho a seguir de acordo com a força interior que nos anima. Chega um detrminado ponto em que não se pode mais aceitar essa imposição, essa hegemonia de poder, essa opressão ditatorial. Então, decidimos ser impossível suportar ou negociar com a ditadura. É certo que desde a minha adolescência e juventude, quando comecei a escrever e a publicar, sempre tive problemas com autoridades do governo, sobretudo por causa das mudanças introduzidas em minha poesia. Recordo que no momento em que abandonei a maneira tradicional de escrever poesia e adotei outras formas mais modernas, todos os festivais regionais de meu país recusavam minha participação. Muitos sequer queriam falar ou conviver regularmente comigo. Poesia moderna, em termos do que entendiam as autoridades iranianas, especialmente no que diz respeito à república islâmica, significava estar de acordo ou subordinado ao pensamento atual do sistema governamental do Irã. Isso, porém, não tem nada a ver com certa tradição religiosa. A rigor, eu sofri esse tipo de reproche desde minha adolescência. A partir de então eu comecei a ver e a conviver com proibições. Uma dessas proibições, por exemplo, foi o culto ou apoio da poesia mundial, ou seja, a poesia produzida fora de Irã. A verdade é que lá se vive submetido a duas cadeias: uma, de definição de si mesmo e, outra, de definição por parte da ditadura. Esta impõe uma opressão de fora para dentro, enquanto a aquela se transforma num cárcere interior.

CA – A expressão “cárcere interior” lembra Santa Teresa Jesus, mas, no seu caso, é algo bem diferente. 

ME – Exatamente. Esse cárcere interior vivido pelos iranianos, eu vivi e suportei enquanto era mais jovem. É pensar em algo que começa e acaba no Irã. É uma forma horrível de nacionalismo que afeta a livre produção poética. Isso significa que temos de começar a lutar dentro de nós mesmos e tentar mudar o sentimento e as ideias dos nossos leitores. Significa uma luta diferente, séria, travada numa perspectiva de ação exercida por um soldado cultural. Assim, conciliar e negociar com a ditadura é algo impossível. Quanado passei dois meses a lutar pelas ruas, depois do golpe de Aberdjanezat, senti, por um lado, que não podia publicar o que escrevia e, por outro, do ponto de vista pessoal, eu passei a corer risco de vida. Ademais, se eu permanecesse em Irã, atuando como soldado cultural, terminaria preso e recolhido a um cárcere. Ou, então, teria que me calar e voltar à minha vila e passar a viver  como os camponeses dali. Isso seria muito bonito, porém, significava aceitar a morte do escritor que sou. Por tudo isso, decidi deixar o Irã e sobreviver como escritor. Disse a amigos que se eles ficassem ali, dentro de seis meses estariam presos. Muitos decidiram ficar, outros resolveram abandonar o país. Resultado: uma geração de escritores deixou o Irã. Não somente escritores, mas, também, engenheiros, trabalhadores e outros profissionais liberais de diferentes especialidades. Agora mesmo vivem cerca de 6 milhões de iranianos no exílio. São mais de 8% da população. Por que essa gente abandona sua terra, um país rico com bastante cultura, e prefere viver no estrangeiro uma vida difícil? Está claro que é porque não têm a menor possibilidade de viver sob o império de uma ditadura.

CA – Nesse elevado percentual é possível incluir também aqueles que abandonam o Irã motivados por questões de natureza econômica, caracterizando, portanto, um processo normal de emigração?

ME –  Eu digo que inclusive a expatriação motivada por questão econômica, tem muito a ver com problemas políticos. Há casos (e eu conheço vários) de pessoas que vivem bem situados em termos de emprego –  professores universitários, executivos e profissionais liberais – que preferiram abandonar o Irã e seus empregos a ter de viver ali submetidos às opressões do regime ditatorial. Isso ocorre apesar do horrível nacionalismo iraniano. Para mim, nos dias atuais, todo aquele que deixa o Irã sempre age motivado por alguma dimensão política.

CA – Como avalia a sua vida de escritor exilado e até que ponto viver em diferentes países europeus, antes de fixar-se no México, na Casa de Refúgio, concorreu para moldá-lo como um expatriado?    

ME – Significou uma experiência  extremamente difícil e, ao mesmo tempo, também triste. Com o tempo aprendemos que não é possível nos querda somente em um lugar a chorar, mas, também, precisamos chorar e chorar e reagir… Não podemos ficar entregues ao abandono. O que aconteceu comigo foi que ao deixar o Irã fui para a Finlândia…

CA – Um país bastante exótico, gelado, bem diferente do Irã…

ME –  Claro. Ali se vive nove meses de excessivo frio com -40°, algo impossível de imaginar. Depois, os finlandeses são diferentes, têm outra percepção sobre a arte, sobre a literatura e a cultura em geral. Uma vez ali, a gente se sente assim como um peixe fora d’água. No começo eu vivi ali num claro vazio. Apesar disso, comecei a construir o meu exílio de diferentes maneiras. Foi uma experiência tão extrema que, depois de certo tempo, conclui que, se eu conseguira sobreviver em Finlândia, conseguiria sobreviver em qualquer parte do mundo. No entanto, apesar da dura ausência dos que me eram mais caros no Irã – minha avó, minha mãe, meu pai e demais parentes – tive a sorte de conhecer amigos e poetas de valor. Após três meses já tinha encontrado o que fazer. Apesar disso, estar desconectado com minhas fronteiras e, por outro lado, sob o império de uma estranha natureza, cresceu em mim uma solidão enorme. Uma das saídas foi ter enfrentado o desafio de conhecer de perto a cultura finlandesa. A porta se abriu por meio da tradução da poesia finlandesa ao persa. Comecei a traduzir poetas e ganhei o “Finnish Literature Exchange, Fili”, em 2010, prêmio que me proporcionou a tradução ao persa de 65 poetas finlandeses.  Eu trabalhava de manhã a noite. Para tanto, contei  com a ajuda de amigos, a exemplo de um que é proprietário de uma ilha particular, lugar tão aprazivel que tinha sauna ao lado de um lago gelado! Essa natureza tão forte que passei a contemplar, de certa maneira, começou a influir em minha poesia. Mudança não só em relação à saudade de meu país, mas à necessidade de manifestar solidariedade a muitos exilados que também vivem numa situação de eterna saudade, rendidos ao sofrimento e à dor. Esse sentimento vive com nosso povo e viaja conosco para todos os lugares. Fazia muito tempo qu eu não escutava persa. Quando passei a traduzir poesia à minha lingua nativa, comecei a ouvir persa em Finlândia, em Praga, em Espanha, no México e até aqui no Brasil. Estou lendo (traduzindo) poesias em idiomas que não são a minha lingua maternal, porém trabalho duro em persa ao traduzi-las. Uma motivação para fazer esse trabalho foi o fato de estar próximo de minha terra e também de levar até ela algo concreto, como se fosse um presente. Pode ser a poesia de João Cabral de Melo Neto ou de Carlos Drummond de Andrade, que já traduzi ao persa, além de outros poetas estrangeiros. Essa experiência, vivida desde Finlândia, me deixou a convicção de que não é possível ficar o resto da vida chorando, morrendo de saudade de meu país. Prefiro ser sempre um lutador e assim luto contra mim mesmo, contra minha tristeza. O que me ajuda a sobreviver é a poesia de cada país por onde tenho passado.

CA – Que papel desempenhou em sua vida o ICORN, a rede interenacional de cidades de refúgio, na qual são acolhidos escritores perseguidos de diferentes países sob a chancela do PEN Internacional, a exemplo de seu caso que, no momento, se encontra refugiado em México, na Casa Citlatelpet. Como e porque você recorreu a esse tipo de ajuda?

ME – Há um poema, traduzido e publicado em Espanha, em que eu falo em viver em cinco cidades em um ano. Apesar disso, sempre me vinha uma imagem de minha casa, de meu país. Ser exilado significa perder a imagem da casa, do lugar de origem. Quando eu vivia ali, certa vez, como já lhe disse, viajei e dormi em todas as cidades iranianas. ISso, porém, era algo diferente, porque eu sempre poderia voltar, a qualquer momento, para minha casa. Quando deixei o Irã, passei um ano a viver em sete cidades de três países diferentes. Essas mudanças, sem a possibilidade de ter uma casa para regressar, um lugar familiar, foi algo muito difícil. Eu levava comigo a permanetne imagem de minha casa. ICORN, portanto, me ajudou muito, porque, apesar de ter amigos no PEN de Suécia, no de Finlândia, no de Espanha etc., verifiquei que poderia usar esse recurso ou apoio. Tive que optar entre ficar com minha nacionlidade iraniana ou de pedir asilo politico em algum país. Então, decidi pelo segundo caminho. Após pedir ajuda ao ICORN, surgiu a acolhida na cidade de México, precisamente na Casa Citlatelpetl. Isso pasra mim foi maravilhoso, porque, o primeiro país que publicou minha poesia em formato de livro físico, foi Espanha. Por isso, logo comecei a aprender o castelhano.

CA – Espanha foi, portanto, para você, uma espécie de “madre editorial”…

ME – Perfeito. Isso me estimulou a aprender o castelhano a partir de 2010, em Espanha. Foi por essa época que encontrei Antonio Gomoneda, em Granada, um poeta extraoradinário. Então disse para mim mesmo: por que não falar seu idioma? Foi com ele e por causa dele que comecei a aprender espanhol. Por essa época descobri que ali, em Espanha, se ignorava a poesia latino-americana, ou seja, ela não era conhecida como deveria ser. Inclusive a poesia brasileira. Isso, creio, nascia de uma certa exacerbação nacionalista. Os espanhóis, são, em grande maioria, localistas, regionalistas, nacionalistas. Eu lutei e luto contra isso no Irã e ali, em Espanha, continuei a combater esse sentimento nocivo ao conhecimento pleno da poesia de todos os lugares do mundo. Daí que quando me surgiu a possibilidade de asilo em México, proporcionada por ICORN, decidi vir para a América decidido também a conhecer sua literatura.

CA – E como foi a acolhida?

ME – Uma vez no México, comecei a traduzir poesia. Esse trabalho se constituiu numa espécie de troca e de aprendizado. Graças à tradução me foi possível viver a experiência de vida noutro idioma e noutra cultura. É, de certo modo, viver com as duas experiências: o meu passado como iraniano e a nova vivência mexicana.

CA – Assim, até que ponto a atual estância em México tem influenciado a sua poesia e inclusive no domínio da tradução?

ME – Essa maneira dual de entender o fenômeno da criação poética sempre existiu em minha vida. O exemplo mais patente foi a presença do folklore na cultura persa, que se manifesta totalmente diferente da tradição literária dali. Isso se nota bem na produção dos grandes poetas iranianos de todos os tempos. A poesia persa é algo bastante fechado, enquanto que o folklore se apresenta de forma aberta, ou seja, como mescla de diferentes culturas do mundo. Em minha região, por exemplo, vivem pessoas que cultuam as tradições turcas, com suas canções, suas lendas, suas danças, sua litaeratura etc. Por outro lado, pelo fato de eu ter vivido por vários países, a minha produção poética está mudando. Exemplo: ao viver em Granada, próximo de Gomoneda, conheci bem Federico García Lorca. Assim, estou sempre a receber influências e a devolvê-las com traduções e novas criações poéticas. Esse tipo de experiência me oferece a possibilidade de me transformar e de combater radicalmente a solidão ou a melancolia. A melancolia passa a ser ato poético. Por isso, sempre estamos predispostos a mudanças, sobretudo na construção do poema. O trato ou o preenchimento dos espaços vazios, os silêncios que existem em nós, afetando-nos naquilo que dizemos ou pretendemos dizer. Essa forma de enfrentar a realidade é, fundamentalmente, um aprendizado, uma convivência com a melancolia ou a solidão. Daí, penso que por onde fui passando e vivendo, de certa forma, absorvi diferentes paisagens, que se transformaram em minhas exclusivas paisagens interiores, naturalmente opostas a paisagens exteriores que eu também visito, porém, fora de mim. Por isso, agora, estou a escrever um livro, no qual cada poema tem o nome de um país latino-americano. Ainda que sejam diferentes os países, em verdade, todos se unificam num símbolo de mulher amada, a minha amada.

CA – A mulher amada é uma curiosa recorrência dos poetas. Por falar nesse tema, eu verifico que a mulher, ainda hoje, é tratada sob forte discriminação não somente no Irã, mas em outros países árabes e asiáticos. Sei que há precedentes históricos, como as que justificam as abstrusas castas indianas, porém, de qualquer sorte, tudo resulta numa odiosa atitude de desigualdade da mulher em relação ao homem. Qual seu pensamento sobre esse tema tão polêmico?    

ME –  Eu recordo desde criança as lágrimas de minha mãe. Era um tempo de guerra meu pai, apesar de ser um homem religioso, golpeava minha mãe. Eu recordo a voz de minha mãe a lamentar-se e a dizer que iria suicidar-se. Guardo comigo a lembrança do suicídio de muitas mulheres que viviam em minha vila a mesma situação naqueles tempos de guerra. Há uma cidade em Irã em que as mulheres se suicidavam tocando fogo no próprio corpo, queimadas…

CA – Imoladas sob a ação do fogo.

ME – Sim. Essa é a situação das mulheres iranianas. No entanto, no que respeita à discriminação e à desigualdade a situação é universal. A intensidade pode ser diferente neste ou naquele país, porém, lamentavelmente, a regra é universal. Esse estado de coisas decorre, a meu ver,  do próprio desequilibrio da mente, da razão masculina. E não só do homem, mas, também, de seus equivalentes. Capitalismo é masculino. É um fenômeno masculino. Em meu país todos os fundamentalismos são masculinos. No entanto, cresce o movimento contra esses tipos de discriminação e o governo está muito assustado.

CA – Nesse movimento os ativistas defendem a igualdade da mulher em todos os setores da vida social?

ME – Sim. No entanto, eu, como poeta iraniano exilado, tenho que lutar contra a propaganda mundial contra o Irã. Essa propaganda difunde uma coisa nociva contra os iranianos: diz ser oIrã é um deserto, onde todas as mulheres andam com o rosto coberto, são “coisas” e não seres humanos; porém, felizmente, não é verdade. Historicamente o Irã teve formação diferente. Por exemplo, é bastante diferente de Arábia Saudita. A questão fundamental é outra. Temos no Irã uma cultura diversa, mas aberta e essa abertura nunca permitiu que os politicos fundamentalistas impusessem suas regras fechadas e radicais de maneira livre, sem resistência. Muitas mulheres iranianas defenderam e sofreram violências por causa dessa luta contra a discriminação. E nós, poetas, estamos sempre ao lado das mulheres, porque a poesia é feminina.

CA – Para terminar, como você, além de poeta e tradutor, também é um homem que domina a Informática, em todos os niveis, com interesse forte sobre a chamada tecnologia da informação, que acha da veiculação da poesia sob o formato online em lugar do suporte físico do papel?      

ME – Primeiro, eu preciso dizer que o “corpus” do pensamento não é o papel. O pensamento depende de nosso corpo, de nossa mente, de nossa razão.  Assim, o pensamento pode vir pelo ar, das montanhas, do céu ou do computador. Não importa.  O mais importante é que o pensamento deriva de nossa mente e chegue à mente do leitor. Por outro lado, eu venho de uma cultura antiga, na qual a publicação que tem o papel como suporte subrevivia há milenios anteriores. A poesia de Hafiz se difundiu por séculos sem a necessidade de uso do papel. A máquina de Gutemberg foi um acontecimento industrial e, ademais, teve e tem algo que ver com o capitalismo. Não passa de uma espécie de mecanização do pensamento. Comparar a cultura digital com a cultura difundida por meio do papel, a meu ver, é apenas uma questão de escolha. O papel pode, até, ter um significado nostálgico, mas eu prefiro o suporte digital porque é mais democrático. Dentro do Irã, por exemplo, eu tenho publicado toda minha obra em formato digital. Assim, eu escrevo para todos e não só para aqueles que podem comprar livros físicos, em papel. Em contrapartida, pode-se dizer que os editores  objetivam ganhar dinheiro. O poeta não deve escrever para enriquecer. Eu não escrevo para ganhar dinheiro. Quem tem dinheiro, via de regra, nem sempre pode publicar um livro de poesia, isso porque sua existência como autor corresponde mais à necessidade do mercado editorial. João Cabral de Melo Neto, um grande poeta, não poderia viver do dinheiro ganho com sua poesia. Eu mesmo vivi anos trabalhando como programador de computadores. Assim, entendo que a poesia não é uma mercadoria. Poesia não existe para ser vendida, mas para ser vivida.

 

leia mais: http://www.penclubedobrasil.org.br/Mohsen1.html