MOHSEN EMADI: “O QUE ME AJUDA A SOBREVIVER É A POESIA DE CADA PAÍS POR ONDE TENHO PASSADO”.

Entrevista a Cláudio Aguiar

O poeta e tradutor iraniano Mohsen Emadi veio ao Brasil para participar de eventos em Curitiba, Rio de Janeiro e Ouro Preto. A sua vinda, patrocinada pela ONG International Cities of Refuge Network (ICORN), entidade sediada na Noruega e apoiada pelo PEN Internacional, contou também com os auspícios da Festa Literária das Periferias (FLUPP) e do PEN Clube do Brasil.  Além disso, Emadi atuou nas demarches que culminaram na criação da  Casa Brasileira de Refúgio (CABRA), a primeira ONG do gênero a ser fundada na América do Sul, com sede no Rio de Janeiro.

Mohsen Emadi (Irã, 1976), publicou, entre outros, os livros de poesia A flor das linhas (Lola Editorial, 2003), As leis da gravidade (Oliphant, 2011) e O visível ar, legível como a morte (Oliphant, 2012), todos editados em Espanha. Em 2007 foi publicado no Irã o livro de poesia Não falar de seus olhos (Ghoo Publishing). Publicou, ainda, traduções de obras de Vladimir Holan, Nichita Stanescu, Jiri Orten, Antonio Gamoneda, Pizarnik, Juan Gelman, Cezar Vallejo, João Cabral de Melo Neto, Carlos Drummond de Andrade etc. Em 2007 fundou a Antologia Mundial de Poesia Persa, da qual figura como editor responsável. Deixou o Irã em 2009 e passou a viver em vários países europeus. Atualmente está vivendo na cidade do México (DF), onde trabalha na elaboração de dois livros de poesia e em documentário poético sobre o exílio de Luis Cernuda. Em 2010 recebeu a bolsa de estudos “Finnish Literature Exchange, Fili” para sua antologia de poesia finlandesa. No mesmo ano ganhou o Prêmio Internacional de Poesia Medo (Espanha). Em 2011 conquistou a Bolsa Internacional Antonio Machado de Espanha.

Cláudio Aguiar – Para começar, quem é Mohsen Emadi?

Mohsen Emadi – Saber quem eu sou é muito dificil. Descobrir-me é como encontrar a morte. Se, por um lado, a todo momento estou construindo eu mesmo, por outro, com toda minha experiência apenas construo quem eu sou. Esse é um processo de contaminação enfermiça… O que sou e faço, respondendo diretamente à sua indagação, é encarar o essencial da vida. Isso pode ser feito por meio da experiência da minha infância, ou por intermédio de meus textos, isto é, o visível e o invisível, o que vemos e o que nunca falaremos. Tudo isso se enraiza em meu corpo e por certo, eu não sou mais do que meu próprio espírito. Nesse sentido, eu sou um ser enfermiço e também eterno.

CA – Seu nascimento e formação inicial se deram numa cidade grande ou numa vila do interior de costumes rurais?  

ME – Eu nasci no norte de Irã, numa vila a apenas 15 km do mar Cáspio, praticamente dentro de um bosque. A minha formação se deu ao lado da família, formada por camponeses cultivadores de arroz e de outros produtos agrícolas e também caçadores. Parte de meus familiares também era integrada por viajantes do comércio com outras vilas próximas.

CA – Como e quando surgiu seu interesse pela poesia ou, noutras palavras, a manifestação da sensibilidade pelo artístico?   

ME – Penso que para responder a essa pergunta o melhor seria falar sobre minha avó, uma mulher ativa, sempre a lutar na vila por causas nobres, a exemplo do direito das mulheres. Ela bailava, cantava e vestia roupas encantadoras. Era uma das poucas mulheres do lugar que escrevia poesia e, ademais, trabalhava no campo. Sua existência e suas canções folclóricas, tiveram forte influência na minha formação. Por causa dela, desde os 6 anos, comecei a esvrever poesia desde. Era tempo de guerra e, naquela época, poesia era uma forma de viver e não só de expressar e de sentir. Daí que a única maneira de senti-la era por meio do canto, da música.  O Irã tem longa tradição poética. Todas as pessoas, de etodos os niveis sociais, mantêm forte contato com a poesia. Agora, o que estou a chamar de poesia não é, evidentemente, o que eles praticam como poesia. Eles têm uma maneira especial de expressar a litetatura. A literatura persa. Assim, a forma poética que eu adoto, como escritor, é outra forma de expressão que me custou muitos anos de aprendizado.

CA – Você disse que em Irã se respira e se transpira poesia. Isso é muito curioso. Creio que, talvez por esse caráter tão marcante da vida iraniana, a poesia está presente inclusive na celebração das estações do ano, como a Primavera, chamada de “noruz”, quando se comemora o primeiro dia do ano, acontecimento que anuncia  a chegada das flores, do que há de mais belo na natureza.

ME – Quase todos os aspectos de nossas tradições culturais têm algo que ver com a poesia. Noruz para nós significa renascimento de toda a natureza. Isso ocorre não apenas no Irã, mas em outros países vizinhos, como a Albânia, Turquia, Afeganistão etc., onde a primavera tem esse significado. Na noite em que começa noruz, quer dizer, a primavera, toda a gente se reúne para dizer ou ler poesia, principalmente as obras de Hafiz…

CA – Em que época  viveu Hafiz, poeta símbolo dessa tradição?

ME –  Na época medieval. Sua poesia existe em toda casa iraniana. Temos uma palavra para dizer o que isso significa, a qual pode ser traduzida como sendo “linguagem da ausência”, expressão que também deve ser traduzida como “decifrar nosso futuro”.

CA – O sentido dessa expressão talvez possa lembrar o nosso termo “saudade”, aquilo que os espanhóis, numa tentative de aproximação, chamam de “nostalgia”.

ME – Eu penso que saudade e nostalgia são termos diferentes, porque, como dizia meu amigo Eduardo Milán,saudade é saudade de si mesmo, enquanto que nostalgia é saudade do outro ou de algo.

CA – Bem, depois de atingir os 30 anos de idade, você começou a publicar e a difundir uma obra poética, inclusive, fora do Irã. Terá sido esse labor poético a causa fundamental de seu exílio forçado a partir de 2009?

ME – É bastante difícil responder a essa pergunta. Nós temos sempre a possibilidade de eleger o caminho a seguir de acordo com a força interior que nos anima. Chega um detrminado ponto em que não se pode mais aceitar essa imposição, essa hegemonia de poder, essa opressão ditatorial. Então, decidimos ser impossível suportar ou negociar com a ditadura. É certo que desde a minha adolescência e juventude, quando comecei a escrever e a publicar, sempre tive problemas com autoridades do governo, sobretudo por causa das mudanças introduzidas em minha poesia. Recordo que no momento em que abandonei a maneira tradicional de escrever poesia e adotei outras formas mais modernas, todos os festivais regionais de meu país recusavam minha participação. Muitos sequer queriam falar ou conviver regularmente comigo. Poesia moderna, em termos do que entendiam as autoridades iranianas, especialmente no que diz respeito à república islâmica, significava estar de acordo ou subordinado ao pensamento atual do sistema governamental do Irã. Isso, porém, não tem nada a ver com certa tradição religiosa. A rigor, eu sofri esse tipo de reproche desde minha adolescência. A partir de então eu comecei a ver e a conviver com proibições. Uma dessas proibições, por exemplo, foi o culto ou apoio da poesia mundial, ou seja, a poesia produzida fora de Irã. A verdade é que lá se vive submetido a duas cadeias: uma, de definição de si mesmo e, outra, de definição por parte da ditadura. Esta impõe uma opressão de fora para dentro, enquanto a aquela se transforma num cárcere interior.

CA – A expressão “cárcere interior” lembra Santa Teresa Jesus, mas, no seu caso, é algo bem diferente. 

ME – Exatamente. Esse cárcere interior vivido pelos iranianos, eu vivi e suportei enquanto era mais jovem. É pensar em algo que começa e acaba no Irã. É uma forma horrível de nacionalismo que afeta a livre produção poética. Isso significa que temos de começar a lutar dentro de nós mesmos e tentar mudar o sentimento e as ideias dos nossos leitores. Significa uma luta diferente, séria, travada numa perspectiva de ação exercida por um soldado cultural. Assim, conciliar e negociar com a ditadura é algo impossível. Quanado passei dois meses a lutar pelas ruas, depois do golpe de Aberdjanezat, senti, por um lado, que não podia publicar o que escrevia e, por outro, do ponto de vista pessoal, eu passei a corer risco de vida. Ademais, se eu permanecesse em Irã, atuando como soldado cultural, terminaria preso e recolhido a um cárcere. Ou, então, teria que me calar e voltar à minha vila e passar a viver  como os camponeses dali. Isso seria muito bonito, porém, significava aceitar a morte do escritor que sou. Por tudo isso, decidi deixar o Irã e sobreviver como escritor. Disse a amigos que se eles ficassem ali, dentro de seis meses estariam presos. Muitos decidiram ficar, outros resolveram abandonar o país. Resultado: uma geração de escritores deixou o Irã. Não somente escritores, mas, também, engenheiros, trabalhadores e outros profissionais liberais de diferentes especialidades. Agora mesmo vivem cerca de 6 milhões de iranianos no exílio. São mais de 8% da população. Por que essa gente abandona sua terra, um país rico com bastante cultura, e prefere viver no estrangeiro uma vida difícil? Está claro que é porque não têm a menor possibilidade de viver sob o império de uma ditadura.

CA – Nesse elevado percentual é possível incluir também aqueles que abandonam o Irã motivados por questões de natureza econômica, caracterizando, portanto, um processo normal de emigração?

ME –  Eu digo que inclusive a expatriação motivada por questão econômica, tem muito a ver com problemas políticos. Há casos (e eu conheço vários) de pessoas que vivem bem situados em termos de emprego –  professores universitários, executivos e profissionais liberais – que preferiram abandonar o Irã e seus empregos a ter de viver ali submetidos às opressões do regime ditatorial. Isso ocorre apesar do horrível nacionalismo iraniano. Para mim, nos dias atuais, todo aquele que deixa o Irã sempre age motivado por alguma dimensão política.

CA – Como avalia a sua vida de escritor exilado e até que ponto viver em diferentes países europeus, antes de fixar-se no México, na Casa de Refúgio, concorreu para moldá-lo como um expatriado?    

ME – Significou uma experiência  extremamente difícil e, ao mesmo tempo, também triste. Com o tempo aprendemos que não é possível nos querda somente em um lugar a chorar, mas, também, precisamos chorar e chorar e reagir… Não podemos ficar entregues ao abandono. O que aconteceu comigo foi que ao deixar o Irã fui para a Finlândia…

CA – Um país bastante exótico, gelado, bem diferente do Irã…

ME –  Claro. Ali se vive nove meses de excessivo frio com -40°, algo impossível de imaginar. Depois, os finlandeses são diferentes, têm outra percepção sobre a arte, sobre a literatura e a cultura em geral. Uma vez ali, a gente se sente assim como um peixe fora d’água. No começo eu vivi ali num claro vazio. Apesar disso, comecei a construir o meu exílio de diferentes maneiras. Foi uma experiência tão extrema que, depois de certo tempo, conclui que, se eu conseguira sobreviver em Finlândia, conseguiria sobreviver em qualquer parte do mundo. No entanto, apesar da dura ausência dos que me eram mais caros no Irã – minha avó, minha mãe, meu pai e demais parentes – tive a sorte de conhecer amigos e poetas de valor. Após três meses já tinha encontrado o que fazer. Apesar disso, estar desconectado com minhas fronteiras e, por outro lado, sob o império de uma estranha natureza, cresceu em mim uma solidão enorme. Uma das saídas foi ter enfrentado o desafio de conhecer de perto a cultura finlandesa. A porta se abriu por meio da tradução da poesia finlandesa ao persa. Comecei a traduzir poetas e ganhei o “Finnish Literature Exchange, Fili”, em 2010, prêmio que me proporcionou a tradução ao persa de 65 poetas finlandeses.  Eu trabalhava de manhã a noite. Para tanto, contei  com a ajuda de amigos, a exemplo de um que é proprietário de uma ilha particular, lugar tão aprazivel que tinha sauna ao lado de um lago gelado! Essa natureza tão forte que passei a contemplar, de certa maneira, começou a influir em minha poesia. Mudança não só em relação à saudade de meu país, mas à necessidade de manifestar solidariedade a muitos exilados que também vivem numa situação de eterna saudade, rendidos ao sofrimento e à dor. Esse sentimento vive com nosso povo e viaja conosco para todos os lugares. Fazia muito tempo qu eu não escutava persa. Quando passei a traduzir poesia à minha lingua nativa, comecei a ouvir persa em Finlândia, em Praga, em Espanha, no México e até aqui no Brasil. Estou lendo (traduzindo) poesias em idiomas que não são a minha lingua maternal, porém trabalho duro em persa ao traduzi-las. Uma motivação para fazer esse trabalho foi o fato de estar próximo de minha terra e também de levar até ela algo concreto, como se fosse um presente. Pode ser a poesia de João Cabral de Melo Neto ou de Carlos Drummond de Andrade, que já traduzi ao persa, além de outros poetas estrangeiros. Essa experiência, vivida desde Finlândia, me deixou a convicção de que não é possível ficar o resto da vida chorando, morrendo de saudade de meu país. Prefiro ser sempre um lutador e assim luto contra mim mesmo, contra minha tristeza. O que me ajuda a sobreviver é a poesia de cada país por onde tenho passado.

CA – Que papel desempenhou em sua vida o ICORN, a rede interenacional de cidades de refúgio, na qual são acolhidos escritores perseguidos de diferentes países sob a chancela do PEN Internacional, a exemplo de seu caso que, no momento, se encontra refugiado em México, na Casa Citlatelpet. Como e porque você recorreu a esse tipo de ajuda?

ME – Há um poema, traduzido e publicado em Espanha, em que eu falo em viver em cinco cidades em um ano. Apesar disso, sempre me vinha uma imagem de minha casa, de meu país. Ser exilado significa perder a imagem da casa, do lugar de origem. Quando eu vivia ali, certa vez, como já lhe disse, viajei e dormi em todas as cidades iranianas. ISso, porém, era algo diferente, porque eu sempre poderia voltar, a qualquer momento, para minha casa. Quando deixei o Irã, passei um ano a viver em sete cidades de três países diferentes. Essas mudanças, sem a possibilidade de ter uma casa para regressar, um lugar familiar, foi algo muito difícil. Eu levava comigo a permanetne imagem de minha casa. ICORN, portanto, me ajudou muito, porque, apesar de ter amigos no PEN de Suécia, no de Finlândia, no de Espanha etc., verifiquei que poderia usar esse recurso ou apoio. Tive que optar entre ficar com minha nacionlidade iraniana ou de pedir asilo politico em algum país. Então, decidi pelo segundo caminho. Após pedir ajuda ao ICORN, surgiu a acolhida na cidade de México, precisamente na Casa Citlatelpetl. Isso pasra mim foi maravilhoso, porque, o primeiro país que publicou minha poesia em formato de livro físico, foi Espanha. Por isso, logo comecei a aprender o castelhano.

CA – Espanha foi, portanto, para você, uma espécie de “madre editorial”…

ME – Perfeito. Isso me estimulou a aprender o castelhano a partir de 2010, em Espanha. Foi por essa época que encontrei Antonio Gomoneda, em Granada, um poeta extraoradinário. Então disse para mim mesmo: por que não falar seu idioma? Foi com ele e por causa dele que comecei a aprender espanhol. Por essa época descobri que ali, em Espanha, se ignorava a poesia latino-americana, ou seja, ela não era conhecida como deveria ser. Inclusive a poesia brasileira. Isso, creio, nascia de uma certa exacerbação nacionalista. Os espanhóis, são, em grande maioria, localistas, regionalistas, nacionalistas. Eu lutei e luto contra isso no Irã e ali, em Espanha, continuei a combater esse sentimento nocivo ao conhecimento pleno da poesia de todos os lugares do mundo. Daí que quando me surgiu a possibilidade de asilo em México, proporcionada por ICORN, decidi vir para a América decidido também a conhecer sua literatura.

CA – E como foi a acolhida?

ME – Uma vez no México, comecei a traduzir poesia. Esse trabalho se constituiu numa espécie de troca e de aprendizado. Graças à tradução me foi possível viver a experiência de vida noutro idioma e noutra cultura. É, de certo modo, viver com as duas experiências: o meu passado como iraniano e a nova vivência mexicana.

CA – Assim, até que ponto a atual estância em México tem influenciado a sua poesia e inclusive no domínio da tradução?

ME – Essa maneira dual de entender o fenômeno da criação poética sempre existiu em minha vida. O exemplo mais patente foi a presença do folklore na cultura persa, que se manifesta totalmente diferente da tradição literária dali. Isso se nota bem na produção dos grandes poetas iranianos de todos os tempos. A poesia persa é algo bastante fechado, enquanto que o folklore se apresenta de forma aberta, ou seja, como mescla de diferentes culturas do mundo. Em minha região, por exemplo, vivem pessoas que cultuam as tradições turcas, com suas canções, suas lendas, suas danças, sua litaeratura etc. Por outro lado, pelo fato de eu ter vivido por vários países, a minha produção poética está mudando. Exemplo: ao viver em Granada, próximo de Gomoneda, conheci bem Federico García Lorca. Assim, estou sempre a receber influências e a devolvê-las com traduções e novas criações poéticas. Esse tipo de experiência me oferece a possibilidade de me transformar e de combater radicalmente a solidão ou a melancolia. A melancolia passa a ser ato poético. Por isso, sempre estamos predispostos a mudanças, sobretudo na construção do poema. O trato ou o preenchimento dos espaços vazios, os silêncios que existem em nós, afetando-nos naquilo que dizemos ou pretendemos dizer. Essa forma de enfrentar a realidade é, fundamentalmente, um aprendizado, uma convivência com a melancolia ou a solidão. Daí, penso que por onde fui passando e vivendo, de certa forma, absorvi diferentes paisagens, que se transformaram em minhas exclusivas paisagens interiores, naturalmente opostas a paisagens exteriores que eu também visito, porém, fora de mim. Por isso, agora, estou a escrever um livro, no qual cada poema tem o nome de um país latino-americano. Ainda que sejam diferentes os países, em verdade, todos se unificam num símbolo de mulher amada, a minha amada.

CA – A mulher amada é uma curiosa recorrência dos poetas. Por falar nesse tema, eu verifico que a mulher, ainda hoje, é tratada sob forte discriminação não somente no Irã, mas em outros países árabes e asiáticos. Sei que há precedentes históricos, como as que justificam as abstrusas castas indianas, porém, de qualquer sorte, tudo resulta numa odiosa atitude de desigualdade da mulher em relação ao homem. Qual seu pensamento sobre esse tema tão polêmico?    

ME –  Eu recordo desde criança as lágrimas de minha mãe. Era um tempo de guerra meu pai, apesar de ser um homem religioso, golpeava minha mãe. Eu recordo a voz de minha mãe a lamentar-se e a dizer que iria suicidar-se. Guardo comigo a lembrança do suicídio de muitas mulheres que viviam em minha vila a mesma situação naqueles tempos de guerra. Há uma cidade em Irã em que as mulheres se suicidavam tocando fogo no próprio corpo, queimadas…

CA – Imoladas sob a ação do fogo.

ME – Sim. Essa é a situação das mulheres iranianas. No entanto, no que respeita à discriminação e à desigualdade a situação é universal. A intensidade pode ser diferente neste ou naquele país, porém, lamentavelmente, a regra é universal. Esse estado de coisas decorre, a meu ver,  do próprio desequilibrio da mente, da razão masculina. E não só do homem, mas, também, de seus equivalentes. Capitalismo é masculino. É um fenômeno masculino. Em meu país todos os fundamentalismos são masculinos. No entanto, cresce o movimento contra esses tipos de discriminação e o governo está muito assustado.

CA – Nesse movimento os ativistas defendem a igualdade da mulher em todos os setores da vida social?

ME – Sim. No entanto, eu, como poeta iraniano exilado, tenho que lutar contra a propaganda mundial contra o Irã. Essa propaganda difunde uma coisa nociva contra os iranianos: diz ser oIrã é um deserto, onde todas as mulheres andam com o rosto coberto, são “coisas” e não seres humanos; porém, felizmente, não é verdade. Historicamente o Irã teve formação diferente. Por exemplo, é bastante diferente de Arábia Saudita. A questão fundamental é outra. Temos no Irã uma cultura diversa, mas aberta e essa abertura nunca permitiu que os politicos fundamentalistas impusessem suas regras fechadas e radicais de maneira livre, sem resistência. Muitas mulheres iranianas defenderam e sofreram violências por causa dessa luta contra a discriminação. E nós, poetas, estamos sempre ao lado das mulheres, porque a poesia é feminina.

CA – Para terminar, como você, além de poeta e tradutor, também é um homem que domina a Informática, em todos os niveis, com interesse forte sobre a chamada tecnologia da informação, que acha da veiculação da poesia sob o formato online em lugar do suporte físico do papel?      

ME – Primeiro, eu preciso dizer que o “corpus” do pensamento não é o papel. O pensamento depende de nosso corpo, de nossa mente, de nossa razão.  Assim, o pensamento pode vir pelo ar, das montanhas, do céu ou do computador. Não importa.  O mais importante é que o pensamento deriva de nossa mente e chegue à mente do leitor. Por outro lado, eu venho de uma cultura antiga, na qual a publicação que tem o papel como suporte subrevivia há milenios anteriores. A poesia de Hafiz se difundiu por séculos sem a necessidade de uso do papel. A máquina de Gutemberg foi um acontecimento industrial e, ademais, teve e tem algo que ver com o capitalismo. Não passa de uma espécie de mecanização do pensamento. Comparar a cultura digital com a cultura difundida por meio do papel, a meu ver, é apenas uma questão de escolha. O papel pode, até, ter um significado nostálgico, mas eu prefiro o suporte digital porque é mais democrático. Dentro do Irã, por exemplo, eu tenho publicado toda minha obra em formato digital. Assim, eu escrevo para todos e não só para aqueles que podem comprar livros físicos, em papel. Em contrapartida, pode-se dizer que os editores  objetivam ganhar dinheiro. O poeta não deve escrever para enriquecer. Eu não escrevo para ganhar dinheiro. Quem tem dinheiro, via de regra, nem sempre pode publicar um livro de poesia, isso porque sua existência como autor corresponde mais à necessidade do mercado editorial. João Cabral de Melo Neto, um grande poeta, não poderia viver do dinheiro ganho com sua poesia. Eu mesmo vivi anos trabalhando como programador de computadores. Assim, entendo que a poesia não é uma mercadoria. Poesia não existe para ser vendida, mas para ser vivida.

 

leia mais: http://www.penclubedobrasil.org.br/Mohsen1.html

WLT: An Interview with Iranian Poet Mohsen Emadi

Persis Karim: Can you say a little about what finally made you leave Iran? Were you threatened with imprisonment? I know you left in 2009, but in the interview you did with Lyn Coffin, your translator, you were a bit vague. I wonder if you can elaborate a bit.

Mohsen Emadi: I wasn’t sure if I had to leave Iran or not. I resisted for years, trying to continue my resistance inside the country. Many of my friends left Iran right after the defeat of the Iranian student movement in 1999. I had some threats, like being questioned for my talks outside of Iran in 2007 and 2008, house searches, and so on, but they weren’t serious. From the time I was a young student at Sharif University, I was active in several political and literary movements of the time. Going to jail for a few months was something predictable. But what actually forced me to leave was the reality that the country was in ruins: a land without morality, without hope, a land characterized by betrayals, the impossibility of working in the public sphere, the expansion of literary mafias, the lies and superficiality of the government in every aspect, personal and public—the type of experience you find in Herbert and Miłosz after their exile. For two months in 2009 I took part in all the demonstrations of the Green Movement, and I witnessed the brutality of the government in the streets—the dead, bullets, tear gas—and I was sure the regime would not bow to the will of the people. So I left with a small hope of return, but this simple hope turned out to be impossible because I became more radical in my writings, talks, and interviews after they killed some of my loved ones in Iran.

PK: Had you been outside of Iran before 2009 for any extended period of time? And when you left in 2009, did you think of it as leaving permanently, as a form of exile?

ME: Actually, my first book was not published in Iran. It was published in Spain and in Spanish, around 2003. Therefore, I was going to Spain for poetry festivals and received a few writer’s residencies (one or two months each time). I also visited Turkey, sometimes for my research on Rumi and sometimes to meet some Turkish poets who were my friends. Yes, I now think I have no chance of returning. I’ve changed a lot. I passed through a period of self-criticism, and therefore my critiques on Iranian culture are as harsh as the ones I level against myself. Here, I had the chance to develop a deep friendship with the late Juan Gelman, and I think he influenced me a lot. He never returned to Argentina, and even last January when he died, we scattered his ashes in a village in Mexico, his country of exile. He was buried, without a tombstone, in exile, and I imagine the same thing for myself.

PK: How have your wanderings around the globe affected your sense of who you are, both as a man and as a poet? Why did you finally end up in Mexico?

ME: As a poet, I try to embrace the world, to discover the rhythms of different languages, cultures, and geographies. Finland, the Czech Republic, and Spain continue their lives in me in the same manner that Iran is still part of me. I look at myself through other subjectivities, the subjectivity of snow, of lakes, friends, and languages. I have also tried to translate the poetry of all the regions in which I’ve lived. And their poetry has changed mine. They became mine. Like Rumi, I love Holan. Like Shamlou, I love Cernuda and many other poets.

I have several publications in Spanish: some books, as well as several anthologies and journal publications. The Americas were unknown to me until recently. I came here because I was curious. I had translated some Latin American poetry into Persian, but I wanted to touch its body and live its poetry. Luckily the ICORN residency program offered me a place in Mexico. I arrived here, and little by little it has become my home.

PK: You seem so comfortable in Spanish—had you studied Spanish? How has translation afforded you the ability to adapt to new settings, new countries, even new languages?

ME: For years, I refused to learn Spanish, until I met Antonio Gamoneda at a poetry festival in Granada and his poetry and his presence motivated me to learn it. I knew a bit before, but that was not sufficient for living and writing in a Spanish-speaking world. From 2010, I tried to inhabit that language. I guess I learn languages quickly, and now I am learning Brazilian Portuguese because I want to revise my translations of Andrade and Melo Neto from the original.

PK: How has your work on the late Ahmad Shamlou, the celebrated poet of Iran, either in preserving his legacy or in terms of your own attention to folk poetry and folklore, helped you to share his work and also kept you connected to Iran and to the Persian language?

ME: Shamlou will always live in me, as a mentor and as a poet. I loved him. He was one of the most important figures of Iranian poetry and one of the most important people I have met in my life. His presence for me is as influential as the presence of Gamoneda or Gelman. I still read and reread his work, and he always surprises me. I was so fortunate to know him. I believe the intensity of his voice, his poetry, and his character is the depth my country has lost and must regain.

PK: Are there ways of being and things that have surprised you about your “exile” that you would not have considered before you actually left Iran?

ME: Everything surprised me when I left, even my own poetry. More than all the objects I’ve seen or places I’ve been, I’ve been surprised by language and what it does. I always think about objects and their naming—how a tree is called tree, árbol, orderakht and what lies in the abyss between these words referring to a single object. I wonder every day about my strength and my weakness, my dreams and myself.

 

January 2015

Source: WLT

The Blue Song | ترانه‌ی آبی

Song of Myself, in Persian

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Song of Myself by Walt Whitman

translated into Persian by Sholeh Wolpé and Mohsen Emadi

(A project of The International Program at the University of Iowa)

 * Read Sholeh Wolpe’s interview on the translation process

Líneas de Fuga: Poesía palestina

Palestina

Revista Líneas de Fuga, No. 33, Dedicado a Poesía Palestina
Selección, Coordinación y Presentación : Mohsen Emadi

Publicado en Noviembre de 2013, Mexico D.F

I

Nichita Stănescu, el poeta rumano, dibujó su autorretrato a través de estas líneas: «no soy nada más / que una mancha de sangre / que habla». Antes de escribir sobre Palestina, me paro frente a ese retrato y me pregunto: ¿de dónde proviene esta mancha de sangre? ¿A quién habla una mancha de sangre? ¿Quién puede escuchar sus palabras? En el folklore de mi tierra la sangre tiene memoria. Siempre regresa. Incluso la sangre derramada sobre el suelo del desierto. Se dice: «en las tierras en las que alguien inocente ha sido asesinado, en el aniversario de la muerte, el suelo se convierte en sangre.» En los cuentos populares, un talismán mantiene presa a una hermosa muchacha dentro de una naranja. Un príncipe emprende un viaje en busca de un árbol custodiado por unos demonios. Finalmente, engaña a los demonios y llega hasta la naranja, que es la cárcel de la joven. La libera. Está desnuda. El príncipe encuentra algo de ropa para ella y la lleva a la casa. Una mujer, celosa de su belleza, la asesina. Su sangre se derrama en el río, y cada gota se convierte en una perla que flota en el agua. También cae una gota de sangre a los pies de una planta de caña. Las perlas alcanzan a un viejo, y éste busca la fuente de donde ellas provienen. Las perlas le llevan al cuerpo de la chica, y entonces la caña empieza a cantar: «¡me corta! ¡Y por mi savia, únase la cabeza cortada al cuerpo!» En otra versión de la misma historia, un naranjo brota de la sangre. En estas historias, la sangre narra, pasa de una forma a otra. Rumi, comienza una de sus obras maestras con la voz de Ney, un instrumento musical hecho de cañas: «escucha el Ney cuando narra las historias, cuando llora las separaciones.» Ney, canta siempre la misma canción: la canción de la ausencia. En otra historia, una chica, sola en medio de la opresión de los de- más, cuenta sus sufrimientos a una piedra. Le dice a la piedra: «tú eres paciente, yo también. Rómpete o me rompo». La historia cuenta que si en ese momento nadie abraza a la chica por amor, la niña estallará. Pero si alguien la abraza por amor, será la piedra quien estalle y una gota de sangre brotará de ella. El sufrimiento de la piedra es el dolor de la Historia. La piedra es el testigo de todos los pasos: huellas de tor- mentas, guerras y masacres. Me pregunto: ¿de dónde proviene la gota de sangre en las entrañas de la piedra? El amor protege a la joven de la muerte. Pero la piedra, en su sabiduría histórica, entiende el dolor y estalla en la compasión. Tal vez, por esa sabiduría histórica, Mahmoud Darwish, recuerda a Troya cuando habla de Palestina y dice: «en el nombre de Troya».

II

Aunque la interpretación védica de la historia es verdadera, cuando dice: «las mariposas se posan sobre el cadáver del victorioso del mis- mo modo que lo hacen sobre el cadáver del derrotado», siempre hay una sabiduría en la derrota que no existe en la victoria. Victoriosa es la gente con más poder; pero en ambos lados de la batalla, los derrotados, no son los comandantes vivos o muertos, sino las personas comunes y desamparadas de los dos bandos. Bajo la administración civil británica en Palestina, o «Período de mandato británico» operado desde 1920 hasta 1948, los judíos comenzaron a emigrar a esa tierra. Los ojos de un colonialista siempre interfieren y permanecen ciegos: ojos que miran el mundo a través de la intención, el deseo y el miedo, cortándole al mundo sus horizontes. Históricamente judíos y árabes vivieron codo con codo sin problemas. Ese mismo hecho, fue la puerta de los colonialistas al caos y a la tragedia. A partir de 1930 la resistencia palestina cobra forma, y en 1936 la rebelión árabe comienza y continúa hasta 1948. La poesía palestina en ese período narra los días de la revolución y la esperanza con odas revolucionarias y apasionadas. La derrota sobrevino en 1948, cuando comenzó el largo exilio y se declaró el Estado de Israel. Aquí, la poesía palestina se encuentra a la luz de palabras como: derrota, amor, tierra, resistencia, exilio y ausencia. Palabras que narran la historia de la humanidad. Tal vez, esta sea la razón por la que Palestina se ha transformado en una metáfora de la historia de la humanidad. Digo metáfora de la historia de la humanidad y recuerdo la historia de Isis y Osiris. El Dios de la fertilidad yace muerto, su cuerpo está desgarrado, y una mujer, la diosa de la naturaleza y de la magia, viaja para reunir las partes del cuerpo y traer de vuelta a la vida al ser amado. La poesía siempre es femenina. Esta antigua historia egipcia nos sugiere que Isis es el poeta palestino. La misma historia, al igual que los poetas palestinos, ha viajado por el mundo, reformada, transmitida en varias culturas. Siempre vivió en la antigua Grecia, en el imperio romano e incluso en Inglaterra. En los cuentos de mi pueblo, un día, un viejo llegó a la aldea. Pidió trabajo a un propietario. El propietario le ordenó trabajar en su enorme granja, esparcir las semillas y cuidar de ella hasta el fin de la cose- cha. El primer día el viejo trabajó la granja, el segundo esparció semillas y el tercero recogió la cosecha. El propietario tuvo miedo de ese milagro. Mató al viejo con un hacha y enterró el cadáver y el hacha en el campo. A partir de entonces, cada noche, el propietario se despierta de una pesadilla y el hacha siempre está ahí: debajo de su almohada. Puse el nombre de «la poesía» al milagro del viejo. El asesino tiene miedo de ese milagro y cada noche encuentra el hacha, el hacha que la poesía devuelve debajo de su almohada. Cuando Darwish le dice al periodista israelí: «estoy buscando a los poetas de Troya, porque Troya nunca nos contó su historia». Tal vez, con una sonrisa, está pensando en Fobetor (Iquelo), el dios de las pesadillas. Con la poesía de Darwish, Fobetor entra por las ventanas a las habitaciones del victorioso. Fobetor es la raíz griega de fobia (Φόβος). La fobia del victorioso es el mismo hacha que asesina a los poetas.

III

¿Qué es el exilio? Ryokan escribe: «el ladrón ha dejado la luna en mi ventana». El poeta viene a casa y ve que el ladrón se ha robado todo. Mira la ventana y ve la luna. Me pregunto: ¿cómo escribimos el Haiku mismo si el ladrón robó la casa? ¿Si llegamos a nuestra calle, en donde todo está en su lugar menos la casa? Tal vez, para Ryokan, la ventana del poema, no era mi ventana. Podría ser una ventana multiplicada. Quiero decir que él lo escribiría así: «el ladrón ha dejado la luna en las ventanas». Con este cambio, el ladrón se podría generalizar a un ladron que roba de todas las ventanas. El exiliado toca una especie de universalidad que los demás habitantes no pueden tocar. La experiencia del exilio, al principio, es la experiencia del desplazamiento. Desplazamiento de naves, ahogamientos cerca de las costas de Italia o de Australia. Desplazamiento no significa estar sin lugar. Cuando no puedes hablar en tu lengua materna, cuando pierdes el ritmo del ser, entras en la esfera de la intemporalidad. Los exiliados están fuera de la Geografía y de la Historia. Y desde esa distancia las ven. El lugar y el tiempo, en principio, son nostálgicos; entonces, esa nostalgia, esa experiencia de ausencia, sustituye a la experiencia del abismo. Pero la poesía siempre se levanta del abismo. Los objetos se medirán por los idiomas: ¡no tengo una palabra para ese objeto! Y entonces, la historia de los objetos será la historia del vértigo. La metáfora del judío errante, que un día fue la metáfora del desplazamiento, enfrente de las cámaras ocupa y roba una geografía. Los poderes que han utilizado esta metáfora no han sido conscientes de los peligros que éstas entrañan. Actualmente, Palestina es una metáfora personificada de todos los exiliados y los desplazamientos de la historia. Un palestino vive en el exilio, incluso en su patria. Vive la forma más primigenia del exilio. Los marineros negros del sur de mi tierra, dicen: «cuando alguien se pierde en el mar, cuando todas las búsquedas han sido inútiles, todo el mundo debe venir a la orilla y tocar el tambor». Tocar el tambor para los perdidos hasta que ellos puedan encontrar el camino a la costa. La poesía, en todas las orillas del mundo, está tocando el tam- bor. Tal vez allí nos encuentre nuestra costa.

IV

La resistencia es creación. Es decir, recreación de la naturaleza. En el pensamiento de Aristóteles, el arte imita a la naturaleza. Pero la poesía no acepta el marco aristotélico porque la destrucción comienza cuan- do la naturaleza no sigue al arte. Darwish, en su poesía, habla de esta naturaleza creativa de la resistencia: «la tierra es demasiado oscura, ¿por qué es tu poema tan blanco? Porque mi corazón está lleno de treinta mares»: Lleno, embarazado, proviene de treinta mares, desde el exilio. Y en otro poema dice: «cuando escribo veinte líneas sobre el amor, imagino este asedio, ¡ha vuelto a veinte metros!» Una mezcla de amor y escritura, significado y acción, en la lucha contra el asedio. En los cuentos populares de mi tierra, cuando la vida del ser humano y del pueblo están asediadas por un invierno frío, la cigüeña permanece atrapada en algún lugar de las montañas y no puede llegar a la aldea. La cigüeña es el pájaro de la fertilidad. Es un ave migratoria. Su corazón está lleno de treinta mares. En esos cuentos, un niño debe viajar a las montañas altas y encontrarla. Debe entregarle el calor de su cuerpo y traerla de vuelta a la aldea. En esos cuentos, si los humanos no eran capaces de viajar en la profundidad de la frialdad y no ofrecían el calor de su cuerpo, es decir, la experiencia corporal del amor a la cigüeña, el frío mataba a la tierra. Ese cuerpo humano, en todas esas historias, se refiere a la poesía. En cada resistencia el cuerpo está presente, porque la resistencia pertenece al cuerpo creativo.

V

¿Cómo podemos conocer el cuerpo de la poesía palestina? Partes de ese cuerpo viven en la misma geografía. Pero esa geografía está rota: algunos viven en la ocupación, otros en el Estado israelí. Algunos más están en el exilio y escriben en árabe. Algunos viven en otros idiomas. Pero mientras la poesía de Palestina viva, Troya tendrá su voz. La sangre hablará. Esta colección de poemas no sería posible sin la ayuda, trabajo y amistad de Nathalie Handal. A ella le estoy agradecido, así como a todos los poetas que nos dieron permiso para publicar sus textos aquí. También, quiero agradecer a Luz Gómez García por permitirnos disponer de sus traducciones de las obras de Mahmoud Darwish. Ojalá que este pequeño rincón pueda ser la casa de una ver- dad, que es la poesía, que es Palestina.

In Persian/ En Persa

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No hablábamos de sus ojos

Antologia de poesia

Mohsen Emadi

arusiykparvane

El matrimonio de una mariposa

Poesia de Nichita Stanescu

Traducción de Mohsen Emadi

y …

Poesía De Miedo

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Título: Poesía de Miedo 2010
Autor: Mohsen Emadi
Traducción: Manuel Llinás
Ayudas: Diputación Provincial de Zaragoza
Coordinación: Olifante
Fecha De Impresión: 1-11-2010
ISBN: 9788492942091

Las tierras del Moncayo fueron ayer un escenario perfecto para celebrar varios actos relacionados con la literatura de misterio y la festividad de Todos los Santos. Desde el mediodía, las plazas y calles de Litago se llenaron de calabazas iluminadas y cruces mortuorias reales para escoltar la estatua de Lug -dios celta del Moncayo- realizada en bronce por el artista sevillano Luigi Maráez, con motivo de su instalación e inauguración en una de sus calles. Al acto asistieron el alcalde, Pedro Herrero, el autor de la obra, la organizadora del acto, Trinidad Ruíz Marcellán, y numeroso público.

En la ermita del Pilar tuvo lugar una lectura de textos. El poeta iraní Mohsen Emadi, residente actualmente en Finlandia, recibió, por su poema ‘Luces’, el V Premio Internacional de Poesía de Miedo (convocado por La Casa del Poeta y Ediciones Olifante). Emadi leyó su poema en persa, y su traductor, Manuel Llinás, lo hizo en castellano. El premio del público recayó ex aequo en los poetas David Mayor, Emilio Pedro Gómez y José Luis Martínez Mallada. Trinidad Ruiz Marcellán entregó a los galardonados el correspondiente certificado acreditativo realizado por el calígrafo Ricardo Vicente Placed. También se presentó la edición del V Premio Poesía de Miedo 2010 en ‘Papeles de Trasmoz’ de Olifante.

Manuel Forega, Miguel Ángel Yusta, Luisa Miñana, de la Asociación Aragonesa de Escritores; Agustín Porras, llegado desde Madrid; poetas procedentes de Soria, como Victoria Puig; los becados por la Fundación Antonio Machado: el iraquí Abdul Hadi Sadoun y el peruano Martín Rodríguez Gaona; y poetas de las tierras del Moncayo leyeron sus poemas de miedo.
El público asistente leyó poemas de Miguel Hernández, García Lorca, Mistral, Guinda, Bécquer y Quiroga, entre otros. Impactaron las proyecciones cinematográficas de ‘El cuervo’, de E. A. Poe y de M. Emadi; y conmovieron las narraciones orales y leyendas tradicionales y populares de miedo trasmitidas o interpretadas por Antonio Domínguez y Luigi Maráez, así como la intervención musical de los artistas argentinos Claudio López y Nora Iglesias, la turca Alime Hüma y la actuación del mentalista profesor Vicente. Las hogueras iluminaron el cielo de Litago y los asistentes degustaron productos de la tierra.

 

HERALDO DE ARAGON

Rubayat de Abusaíd Abuljair

rubayat

Autor: Abuljair, Abusaíd ;
Selección y & Prelude de Mohsén Emadí ;
Traducción de Clara Janés y Ahmad Taherí
Título: Rubayat
Publicación: Madrid : Trotta, 2003
Descripción: 94 p. ; 20 cm
Colección: Pliegos de Oriente
Notas: Texto en persa y español
ISBN: 84-8164-652-0

Abusaid Abuljair, místico sufí famoso por sus poemas, sus rubayat, y por haber sido el primero en difundir la ceremonia de danza llamada samá, dijo de sí mismo «soy nadie» porque incorporaba el «yo» en el «nosotros» y el «nosotros» en «Él». Este punto de partida hace explicable que no distinguiera entre poemas propios y ajenos, lo que ha dado pie tanto a que se le atribuyan versos de otros autores como a que se le niegue la autoria de los suyos. Ahora bien, su sensibilidad aglutinó los rubayat más notables de la literatura persa, comparables sólo a los de Omar Jayyam. Ese género literario hizo fortuna en su tierra. Se trata de un tipo de poema breve, el rubai, cuarteta formada no por cuatro versos, sino por cuatro hemistiquios donde se dan cita la fuerza expresiva de las imágenes y los juegos fónicos a los que predispone su estructura: riman el primer, segundo y cuarto hemistiquio quedando el tercero libre. En el caso de Abusaíd, tanto el aspecto formal del poema como su contenido alcanzan una fuerza e intensidad que justifican que su fama como poeta vaya a la par a la que le otorgó su santidad. En el siglo XII, uno de sus descendientes, Mohammad ibn Monawar, escribió su biografía con el nombre de «El misterio de la unidad divina». Del mismo modo, el gran poeta y místico Farid ud-din Attar incluyó su semblanza en el «Memorial de santos», que publicamos como excelente complemento a la selección de sus versos.

Blood’s Voice/ABISMAL II

By the Cradle

If one day flood brings in a sad panther
and a shrine’s door,
if they sew up a shirt with the panther’s skin,
make a necklace with his teeth,
I know that whoever puts on the shirt
will disappear,
and whoever wears the necklace
would be obliged to carry
her own head under her arms.

I take the shrine’s door
install it on the threshold
of my house. It creaks open
to a circle of women,
heads on knees,
caressing their own hair.

Outside, body-less heads
surround a fire with songs.
I don’t recognize my own voice
and the door closes and opens
to the rhythm of the words I grunt.

It is raining.
A unclothed woman knocks on the door.
She carries a boat on her back.
I greet her between the panther’s roar
and the door’s groans.
Silently she unloads her boat in a corner,
climbs in and falls asleep.

The house is in water.
Water carries away corpses of women,
it carries away the door,
and my voice.

We paddle.
We row looking for the voice.

My legacy is a door through which
when a woman enters or leaves
my voice cracks,
and the house drowns in that alien sound.

Each time my bed is a boat
to attract the nudity of a woman.
A women’s nakedness is silent.
It is wet.

I uproot the door,
plant it on my rooftop.
The wind blows.
Guns appear on the threshold of the door.
They point themselves at my throat.

The wind blows
and a thousand wounded panthers
leap out from my mouth.
I am naked.

An unclothed woman,
wet,
draws herself out from among the guns,
kisses the door,
kneels before me.
Panthers leap out from her hair.

I caress your hair.
The door will shut,
voices and winds will pound on the door.
I will not open.
And the lost voice of the man
will become blood,
will flood through the cracks
and mingling with the rain
that will come pouring,
it will flow through the city’s gutters and veins.
I kiss you
and my blood leaps out with every breath,
out from my throat.
It becomes my voice.

You are silent.
You speak inside me.

There’s no one on the rooftop.
I stand there, collect all the photographs
the shirts, the photos of a thousand hands holding guns,
the portraits of women’s heads
and the narrow stream of blood
that flows on the paper’s edge.

I light a match,
throw into fire the shirts and the papers.
The fire has your shape.
I want to touch your hair.
I reach for you
and become a poet.

I pick up my pen
and blood flows from my hand.
The lines are your hair,
in every line a panther roars.

**

On the balcony
I fill my childhood cradle with soil,
plant roses inside it.
I water the roses,
rock the cradle.
The city is silent.

*

Translated by Sholeh Wolpé


ABISMAL

Si un día el diluvio trae una pantera triste y la puerta de un santuario; si con la piel de la pantera tejen una túnica y hacen un collar con sus dientes, sé que quien se ponga la túnica se desvanecerá y quien se ponga el collar habrá de llevar la cabeza bajo el brazo.

Arranco la puerta del santuario y la levanto en el portal de mi casa, entre crujidos se abre a un corro de mujeres que acarician sobre su regazo los cabellos de su propia cabeza.
Afuera.
Cabezas sin cuerpo cantan alrededor de una hoguera. He perdido mi voz; rujo palabra por palabra y la puerta se abre y se cierra al ritmo de mi voz.
Llueve.
La desnudez de una mujer llama a la puerta con una barca a hombros; saludo entre rugidos de pantera, la puerta gime. Callada, descarga su barca en un rincón. Sube a la barca y se queda dormida. La casa está inundada. El agua arrastra cadáveres de mujer. Arrastra la puerta. Arrastra mi voz.
Remamos.
Remamos en busca de mi voz. Mi legado es una puerta. Al salir por ella una mujer mi voz se quiebra y en ese extraño ruido la casa se desploma. Siempre que mi cama es una barca atrae la desnudez de una mujer. Húmeda desnudez de mujer.
Callada.

Arranco la puerta con su marco y la planto en mi azotea. Sopla el viento. Surgen fusiles en el marco (me apuntan a la garganta). Sopla el viento. Sopla y miles de panteras heridas brotan de mi boca. Desnudo. Desnudez de mujer.
Húmeda.
Escapa de entre los fusiles, besa la puerta, se arrodilla ante mí. Surgen panteras de su pelo. Acaricio tus cabellos; se cerrará la puerta, en ella repiquetearán ruidos y vientos. No abriré, y la voz perdida del hombre se convertirá en sangre fluyendo entre las grietas. Se mezclará con la lluvia que caerá, y correrá por canales y venas de la ciudad. Te beso; con cada aliento la sangre brota de mi garganta, forma mi voz. Tú estás callada.
Hablando en mí.

No hay nadie en la azotea. Me levanto y recojo todos los retratos, retratos de miles de manos con fusiles, túnicas; retratos de cabezas de mujer. Un flujo de sangre resbala por el borde del papel. Enciendo una cerilla. Arrojo a las llamas túnicas y papeles; el fuego tiene tu silueta y anhelo acariciar tus cabellos, extiendo la mano y me hago poeta.
Mi legado es un coágulo de sangre que contemplo en la palma de mi mano. Cada vez que hago fuego aparece una adivina con tus ojos presagiándome
una muerte horrible.
Cojo mi pluma y la sangre fluye de mi mano; tus cabellos son mis versos, en cada trazo una pantera ruge.

En el balcón, lleno de (relleno con) tierra la cuna de mi infancia
en ella planto rosas rojas y las riego,
mezo la cuna,
la ciudad está en silencio.